Em face do dito pelo senhor Cid Gomes na edição de 28 de janeiro de 2010, pág. 21, os opositores à construção do estaleiro no Titanzinho pedem ao O Povo igual espaço para réplica e o bom esclarecimento dos fatos, conforme o Artigo 5, inciso V, da Constituição Federal. .
1- Ao contrário do que diz Cid Gomes, os impactos provocados pela construção de um estaleiro são numerosos e fazem-se sentir no local de implantação domesmo e em suas imediações, degradando o meio ambiente e a qualidade de vida dos cidadãos.
2- Cid diz que “nenhuma família será removida”. Ora, governador, não pense que somos ingênuos. Com a construção da obra, aquela área será valorizada e o poder econômico e a especulação imobiliária certamente forçarão as famílias pobres a se retirarem dali, processo, aliás, que já aconteceu em outros locais de Fortaleza ao longo de nossa história ante a conivência e, porque não, apoio do poder público.
3- Dizer que não haverá congestionamento na área é outro argumento de Cid. Como “não chegará nada por terra” ao estaleiro? E a construção da obra será feita também a partir do mar? Um estaleiro não consome apenas chapas de aço, governador. Por onde, então, chegarão as demais matérias-primas? E a movimentação de máquinas, caminhões e veículos do estaleiro? Nós sabemos como trânsito da cidade, que já é um caos, ficará mais complicado ainda, governador...
4- Cid diz que não haverá danos ao meio ambiente. Um estaleiro, governador, emite constantemente rumor e, junto com a poeira do aço e a fumaça dos processos de construção, põe em perigo a saúde das pessoas que habitam nas proximidades, sem falar os danos à fauna e flora da área. Há, sim, seríssimos riscos à vida e à ecologia!
5- Há ainda a questão do resto das placas de aço, não aproveitadas completamente na construção dos navios no estaleiro. Para onde vão esses dejetos? A empresa reduzirá seus lucros para tratar desse lixo, ou vai jogar nas áreas próximas, poluindo-as ainda mais, como costumeiramente acontece no Ceará e no Brasil? E os danos ao solo, governador? E os prejuízos ao lençol freático, governador? A empresa e o senhor aceitam ser responsabilizados civil e criminalmente pelo que acontecer?
6- Onde serão jogados os resíduos químicos usados para lavar as chapas de aço? Nos solos ou no mar, governador. Mesmo que sejam tratados, esses dejetos ainda poluem, governador. E o senhor diz que não haverá prejuízos às praias de Fortaleza...
7- E a poluição sonora, governador, não pode ser levada em conta? O tal estaleiro pode ser montado numa área densamente povoada. Será que as pessoas humildes não têm direito a um descanso e ao silêncio? Ou isso não tem importância? Sugiro aos apreciadores dos tais “paredões de som” fazer uma manifestação perto da casa de Cid. Talvez ele escute e se convença da validade desse argumento...
8- Há ainda a questão do impacto visual. Um estaleiro é um monstrengo, que enfeia qualquer litoral. Será que o fato de o Serve Luz ser um bairro de pessoas pobres foi a razão principal para a escolha do tal estaleiro, afora o fato de se explorar a mão-de-obra farta e barata pagando salários irrisórios? Governador, o senhor levou em consideração, por exemplo, montar o estaleiro perto daquele famoso hotel na marina de Fortaleza ou perto daquele outro não menos famoso parque aquático, adorado pelos turistas e segmentos abastados cearenses? Seria interessante ver a reação destes setores caso isso tivesse acontecido...
9- O Senhor Cid chama de “romantismo” aqueles que usam o surf como argumento para barrar o “estaleiro e o progresso do Ceará”. Em outros momentos, o governador já se revelou que não é um humanista (chegou mesmo a confessar nas páginas de O Povo que nem sabia que tinha índios do Ceará!!!). Governador, procure aprofundar suas leituras e entenda a importância das tradições e culturas populares (sugiro especialmente o livro “Costumes em Comum”, do inglês E.P. Thompson). É preciso urgentemente que nossos governantes, economistas e tecnocratas deixem de ver o mundo apenas através números e entendam e respeitem as diversidades culturais de seu povo. Para a população do Titanzinho, há décadas ali instalada, esquecida pelos governantes e tratada preconceituosamente como “bandida e criminosa” (como se num bairro pobre todos fossem marginal, quando na verdade a criminalidade é produto da pobreza!), certamente o surf e outras manifestações culturais apresentam bem mais importância que a postura autoritária de quem sempre lhe desprezou e dos lucros de meia dúzia de empresários. Chega a ser cômico o governo cearense falar agora em investir na comunidade, exatamente quando tem interesse na área. Por que não investiu antes, Cid? Por que eram pessoas pobres? Certamente o dinheiro do tal “aquário” (inútil para o grosso da população, mas amado pelo setor empresarial-turístico!), por exemplo, teria melhor impacto social se fosse aplicado na saúde, saneamento e educação. Lembre-se, governador, o senhor vergonhosamente entrou na justiça contra o piso salarial dos professores do Estado...
10- O seu governo, Cid, manteve o mesmo modelo do Cambeba (Tasso e companhia). O Ceará cresceu economicamente, mas a riqueza continuou nas mãos de alguns poucos. A vida de nosso povo não será mudada com um salário mínimo. Vergonhoso mesmo é ver o silêncio do meu colega professor Pinheiro, do Deputado Nelson Martins a postura do Vereador Salmito. Lutamos e denunciamos tantas vezes as contradições da Era Jereissati (lembram-se ainda dos “Pecados Capitais do Cambeba”?), e agora vocês estão todos aí, calados diante desse projeto que não traz benefício algum ao nosso povo, destrói o meio ambiente, compromete o futuro de nossos filhos e apenas beneficia a oligarquia de empresários que comanda o Estado do Ceará desde 1987. A História não os esquecerá, podem ter certeza.
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Atenciosamente,
Airton de Farias
(Professor e Historiador)






4 Questione Já!:
UM dos Textos mais belos que já vi aqui nos RastreadoreS de ImpurezaS. Escreveu com o coração do povo! Parabéns!
Que Cid agora responda!
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